Blogue de Micas e Morena, cadelas rafeiras, suburbanas, proletárias, com doutoramento honoris causa em filosofia incerta.

terça-feira, 5 de maio de 2009

O mais que consegui ter entre os dentes foi um pardalito

Micas: "Ratos e pombos gosto muito, e quantos mais, melhor!"

Acordei com o barulho dos borrachinhos no telhado da nossa casa. Os pombos já tiveram crias. Ouço-os gemer, tão inspirados do sopro da vida. Viver é bom para todas as criaturas, até para os pombos, desde que tenham a gentileza de se manter afastados dos meus dentes, para não me arranjarem problemas com Ela.
No outro dia, o veterinário de um canídeo que Ela visita, disse, encolhendo os ombros, e desenhando com a boca um esgar de coisa inútil, que lhe custava curar as asas dos pombos que lhe levavam, sabendo que a câmara tem um plano para os matar, que estão em excesso, que sujam tudo. Usou uma expressão que, vinda dum vet, deixou a chefa horrorizada: que os pombos eram "os ratos do ar". Ratos por serem muitos e espalharem as doenças.
Nem eu nem a minha chefa partilhamos tal opinião. Ela gosta da passarada toda por coisas de humanos: a liberdade, voarem, as migrações, a poesia da existência, seja lá isso o que for.
Para mim, os ratos são bichos de uma espécie superior, não só vivos - devido às suas extraordinárias estratégias de sobrevivência: alguém tem consciência do desafio que constitui para um canídeo apanhar um rato vivo, o trabalho que nos dão?! - como mortos.
Entre a carne de coelho, de borrego e a de rato, sinceramente, hesito. A de rato parece que já vem temperada! E se estiver uns dias ao sol, que iguaria!
Pela mesma ordem de ideias, os pombos são ainda mais difíceis de caçar, considerando o meio através do qual se deslocam. Até hoje, o mais que consegui ter entre os dentes foi um pardalito que cerquei entre as plantas do jardim dela. Tirou-mo da boca e deu-me uma focinhada. De vez em quando ainda me diz, por tua causa o bichinho morreu-me nas mãos!
A carne de pombo tem um certo sabor aéreo, pouco salgado, ligeiramente embriagante. O pombo carrega na sua carne o doce veneno das alturas e é, por isso, uma iguaria rara e requintada.
Depois, vejamos, ratos e pombos, se espalham doenças, não são as deles, mas as dos humanos. Logo, os humanos é que são os ratos da humanidade, a extinguir o mais possível com Ratax bem dissimulado em guloseimas.
E pronto, sobre ratos e pombos, isto é o que eu acho. Gosto muito, e quantos mais, melhor.
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7 comentários:

SurOeste disse...

Ola Isabela!!! acabo de chegar a este novo refuxio cando aínda lle estaba a dar voltas ao desagradábel asunto.
Mais agora xa sinto a primavera no fociño coma unha cadela. Parabéns por este novo espazo e grazas por compartilo.

JPN disse...

Viva, Isabela! Cá estou também, curioso sobre as aventuras da Micas e da Morena. :)

Cristina Gomes da Silva disse...

Acho que prometem, estas reflexões caninas. :-)) Um beijo para a dona

Brisa disse...

Lindo!
Estes textos lembram-me as "Pesquisas de um Cão", de Kafka.

sete e picos disse...

ó Micas, tu vais-me desculpar mas os pombos são a coisa mais nojenta deste mundo, mais horrivel, mais asquerosa, caça-os todos e ajuda a exterminar-los mas por favor não os comas!!

e pede lá lá desculpa à tua chefa, mas eu tenho uma reacção alérgico-mental a esses animais, apesar de adorar animais

CN disse...

vou adorar visitar-te aqui. uma vez, em miúdo, lancei uma fisgada a um pombo. tinha acabado de fazer a minha primeira fisga e estav a a estreá-la. a pedra voou, quase certeira, passou entre as patitas do pombo e apenas o assustou. fiquei com o coração aos pulos, assustado com o que quase tinha feito. descobri que matar produz adrenalina, é excitante. mas nunca mais tentei matar nada.

jraulcaires disse...

E as gaivotas? já aparecem gaivotas, em lisboa, nos sítios mais incríveis, tão poluído deve estar o rio...

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