Blogue de Micas e Morena, cadelas rafeiras, suburbanas, proletárias, com doutoramento honoris causa em filosofia incerta.

domingo, 3 de maio de 2009

Algumas vidas são excessivamente reais

Voltando aos temas-fetiche do Mundo Perfeito: estive hoje a ver um documentário sobre a tal britânica que não sabia falar, quanto mais escrever, e se transformou em star ao contrair um cancro fatal no colo do útero.

Esqueçamos, por momentos, que Jane era do mais brega, que a mãe ficou meio louca com o crack, e que o namorado não passa de um criminoso de pouco interesse: a rapariga, afinal, tinha força, e acreditou até uma fase muito avançada que podia vencer o cancro.

Quando se apercebe de que não controla a doença, impressiona-me perceber que há ali uma mulher a sofrer sem forma de escapar às câmaras. Vendeu a sua história e agora pedem-lhe dignidade e bom aspecto até ao final. As fotos mostram-nos, portanto, uma jovem sorridente, careca, mas sempre bonita. E essa é a Jade coberta de base e cheia de quimicos para aliviar as dores, não a verdadeira mulher com dores nos ossos, incapaz de levantar a cabeça e abrir os olhos.

O que se vendeu ao mundo não foi, portanto, o show da realidade, mas a história de fadas em que se tornou necessário transformar o reality show, para continuar consumível. A degradação física e psicológica de uma pessoa atingida de cancro em estado terminal não tem nada de fotogénico nem de telegénico. Foi preciso esteticizar a doença. A decadência provocada por uma doença demasiado real, que nos pode atingir a todos, incomoda.
Tenho de admitir que Jade, consumida pelo sofrimento dos últimos meses, e não podendo já sair do jogo, mereceu cada uma das libras que ganhou.

6 comentários:

CN disse...

sou um bocado analfabeto informático, se calhar vou dizer uma barbaridade, mas acho que há um modo de escrever no blogue em HTML ou lá o que é... ou seja, não se pode fazer copy paste, apenas linkar. Informa-te bem.

Isabela Figueiredo disse...

Há, há, e eu já descobri. E quanto à Jade, nada a dizer?

Brisa disse...

Pois se se arrependeu de vender a sua história... paciência. Tudo o que escolhemos tem um preço e uma consequência. Por um lado, tenho pena, imagino que os seus últimos tempos não tenham sido fáceis. Por outro lado, sinto-me indignada por toda a publicidade que é feita a propósito de uma pessoa cujo único feito é ser racista e grosseira. Tenho como herói aquele que faz ALGO de positivo pela Humanidade. E a ser imortalizado só aquele que deve servir de exemplo a não seguir. A Jade fashion parece-me muito exagerada...

Pedro Correia disse...

Gostei de te descobrir por aqui. Renovo a sugestão que te fiz há dias.
Bj

Helena disse...

No curso de fotografia que fiz, ensinaram-me que os cães veem a preto e branco e em grande angular... não sei se é verdade.

Mas seria engraçado ter um blog a preto e branco e as fotografias na perspectiva da Morena e da Micas. O lado rasteiro do mundo...

Que bom a Micas e a Morena terem ficado tão parecidas com a dona, na escrita e no olhar do mundo... que bom, que imprescendível.

Mais confortável neste Mundo Cão.

Isabela Figueiredo disse...

Brisa,

no MP escrevi sobre isso. Mas como digo aqui, vi um documentário, e o sofrimento físico desta mulher, a certa altura, tornou-se real e horrível, como não podia deixar de ser. Ela já não era a star, mas a star desfazendo-se em dor que não podia mostrar.
Mesmo sendo a star, mesmo sendo racista, mesmo tendo uma série de defeitos, ela era uma mulher atingida por uma doença que causa grande sofrimento, e o sofrimento toca-me muito. Não acho que ela seja um ídolo. Pelo contrário. Mas já não consigo falar dela como falei no MP.


Helena,

sim, já li algures isso sobre a visão dos cães. Prometo qeu sempre que for possível entrego a máquina à Micas e à Morena e elas que tirem as suas fotos, que eu depois manipulo e ponho a

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