Blogue de Micas e Morena, cadelas rafeiras, suburbanas, proletárias, com doutoramento honoris causa em filosofia incerta.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A Primavera

O Gabi anda a curtir com a Margarida. O Tiago, com a Daniela das mamas grandes. A Mara gosta do Alex mas não admite. Já andaram aos beijos. Aos beijos e outras coisas. A Filipa, a Ana, a Bia, a Roxy, a Lorrany, a Liliana e a Vanda adoravam andar com o Ruben. A Cláudia curte o Bernardo. A Filipa, para além do Ruben, também gosta do Miguel. O João diz que é bissexual. A Nani e a Filipa têm a certeza que a Carla e a Mónica são lésbicas. O Ricardo anda com a Márcia. O Orlando tem uma namorada lá fora que é mais velha. O Carlos queria andar com a Carla que dizem que é lésbica, mas ele não se importava. And so on.

Serviços mínimos

Dormi 12 horas seguidas. Se não tivesse de ir trabalhar, dormiria outras 12 em cima, sem intervalo. Este é o estado em que estou. A Micas e a Morena estão em casa da Avó enquanto recupero.
O novo blogue começa lentamente a desenhar-se na minha cabeça.
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terça-feira, 5 de maio de 2009

O mais que consegui ter entre os dentes foi um pardalito

Micas: "Ratos e pombos gosto muito, e quantos mais, melhor!"

Acordei com o barulho dos borrachinhos no telhado da nossa casa. Os pombos já tiveram crias. Ouço-os gemer, tão inspirados do sopro da vida. Viver é bom para todas as criaturas, até para os pombos, desde que tenham a gentileza de se manter afastados dos meus dentes, para não me arranjarem problemas com Ela.
No outro dia, o veterinário de um canídeo que Ela visita, disse, encolhendo os ombros, e desenhando com a boca um esgar de coisa inútil, que lhe custava curar as asas dos pombos que lhe levavam, sabendo que a câmara tem um plano para os matar, que estão em excesso, que sujam tudo. Usou uma expressão que, vinda dum vet, deixou a chefa horrorizada: que os pombos eram "os ratos do ar". Ratos por serem muitos e espalharem as doenças.
Nem eu nem a minha chefa partilhamos tal opinião. Ela gosta da passarada toda por coisas de humanos: a liberdade, voarem, as migrações, a poesia da existência, seja lá isso o que for.
Para mim, os ratos são bichos de uma espécie superior, não só vivos - devido às suas extraordinárias estratégias de sobrevivência: alguém tem consciência do desafio que constitui para um canídeo apanhar um rato vivo, o trabalho que nos dão?! - como mortos.
Entre a carne de coelho, de borrego e a de rato, sinceramente, hesito. A de rato parece que já vem temperada! E se estiver uns dias ao sol, que iguaria!
Pela mesma ordem de ideias, os pombos são ainda mais difíceis de caçar, considerando o meio através do qual se deslocam. Até hoje, o mais que consegui ter entre os dentes foi um pardalito que cerquei entre as plantas do jardim dela. Tirou-mo da boca e deu-me uma focinhada. De vez em quando ainda me diz, por tua causa o bichinho morreu-me nas mãos!
A carne de pombo tem um certo sabor aéreo, pouco salgado, ligeiramente embriagante. O pombo carrega na sua carne o doce veneno das alturas e é, por isso, uma iguaria rara e requintada.
Depois, vejamos, ratos e pombos, se espalham doenças, não são as deles, mas as dos humanos. Logo, os humanos é que são os ratos da humanidade, a extinguir o mais possível com Ratax bem dissimulado em guloseimas.
E pronto, sobre ratos e pombos, isto é o que eu acho. Gosto muito, e quantos mais, melhor.
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domingo, 3 de maio de 2009

Algumas vidas são excessivamente reais

Voltando aos temas-fetiche do Mundo Perfeito: estive hoje a ver um documentário sobre a tal britânica que não sabia falar, quanto mais escrever, e se transformou em star ao contrair um cancro fatal no colo do útero.

Esqueçamos, por momentos, que Jane era do mais brega, que a mãe ficou meio louca com o crack, e que o namorado não passa de um criminoso de pouco interesse: a rapariga, afinal, tinha força, e acreditou até uma fase muito avançada que podia vencer o cancro.

Quando se apercebe de que não controla a doença, impressiona-me perceber que há ali uma mulher a sofrer sem forma de escapar às câmaras. Vendeu a sua história e agora pedem-lhe dignidade e bom aspecto até ao final. As fotos mostram-nos, portanto, uma jovem sorridente, careca, mas sempre bonita. E essa é a Jade coberta de base e cheia de quimicos para aliviar as dores, não a verdadeira mulher com dores nos ossos, incapaz de levantar a cabeça e abrir os olhos.

O que se vendeu ao mundo não foi, portanto, o show da realidade, mas a história de fadas em que se tornou necessário transformar o reality show, para continuar consumível. A degradação física e psicológica de uma pessoa atingida de cancro em estado terminal não tem nada de fotogénico nem de telegénico. Foi preciso esteticizar a doença. A decadência provocada por uma doença demasiado real, que nos pode atingir a todos, incomoda.
Tenho de admitir que Jade, consumida pelo sofrimento dos últimos meses, e não podendo já sair do jogo, mereceu cada uma das libras que ganhou.

sábado, 2 de maio de 2009

Se me tosquiassem é que era bom

Morena: "Quero tipo espalhar-me pela colina toda."


Hoje, alvorada às 8h30. A chefa ainda está para ali atordoada a escrever no computador como forma de exorcismo.
A mulher-a-dias, uma filipina que tem sido a salvação da minha dona para pôr ordem nesta casa, sobretudo para limpar os pêlos que vamos largando, tocou largamente à campaínha, Mrs. Isabela, Mrs, Isabela, it's me, your mother told me eight thirty. Conhecendo a chefa como conheço, aquilo foi uma punhalada no coração. Eight thirty, para uma fêmea humana que gosta de ficar pela noite fora a ver filmes, e a ler e escrever, enquanto eu lhe aqueço a cama...
A canídea alfa, a que a chefa chama Micas, foi para a sala apanhar sol no lombo, espreguiçar-se sobre o sofá, e eu aproveitei para me enfiar logo na cama dela, aqui no quarto, às escuras, enquanto ouço o aspirador lá fora. Para a sala é que não, que se a chefa me apanhasse desprotegida ia logo beijar-me, abraçar-me, apertar-me, Moreninha do meu coração, docinho da dona, chuac, chuac, e eu, sinceramente, quero é que não me apertem o lombo, que me "deslarguem", e já agora, de preferência, que me mandem tosquiar, que começa a fazer calor.

Ah, eu também não queria escrever neste blogue, e também sou analfabeta como a fêmea alfa, e também quero tipo espalhar-me pela colina toda, e tudo, tudo igual à treta que transmitiu ontem a outra.





sexta-feira, 1 de maio de 2009

Os problemas do mundo transcendem-me

Micas: "é desta forma que um canídeo, fêmea, pode escrever num blogue"

Esclareçamos desde já um princípio. Tal como o Alberto Caeiro sou analfabeta. Não sei distinguir um b dum i. Para mim tudo o que conta é o campo, a erva, as flores, os bichinhos mais pequenos escondidos debaixo das pedras, as aves que voam rasteiras ao meu focinho, o cheiro a coelhos, as lagartixas, rebolar-me na terra que cheira a terra, enterrar bocados de comida onde ninguém possa encontrar, e espalhar-me pela colina toda, ser a colina toda.
Tenho com a minha dona - como ela se intitula; prefiro chamar-lhe Ela, por vezes, a Chefa, depende - o mesmo relacionamento que qualquer animal da minha raça mantém com o ser humano com o qual vive. Há entre nós um canal de entendimento que transcende a linguagem no sentido clássico. Há sinais entre nós, que entendemos mutuamente. Que aprendemos com os anos. Não nego que compreendo alguns dos sons produzidos pela sua boca, mas a nossa comunicação principal faz-se pelo cheiro, pelo tacto, pela visão e por uma outra via sensível que os humanos desprezam: o pensamento. Ambas pensamos, e os nossos pensamentos cruzam-se, dialogam entre si. E é desta forma que um canídeo, fêmea, pode escrever num blogue. As mãos dela escreverão o que o seu pensamento ouviu ao meu.
Isto não foi um desejo meu. Ela insistiu e eu deixei. Se é importante que o mundo saiba o que penso sobre ele? Não. Sinceramente não. Isso são preocupações da espécie humana. A mim basta-me ter a barriga cheia, correr e dormir quentinha. Isso é a felicidade. Não conseguirem ser felizes, tendo tudo isto ao seu alcance, é algo que nem eu nem os outros cães, com os quais contacto lá em baixo, podemos entender. Os humanos complicam. Ser feliz é, por exemplo, ir já dormir uma soneca depois de comer.


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